Mudar as coisas…

Abril 26, 2008

Discurso de Cristovam Buarque

Arquivado como: momentos para mudar — Tags: , , , , , — anlundo @ 6:14 pm

Tive conhecimento do seguinte discurso:

Discurso do Ministro Brasileiro da Educação nos EUA… Este discurso merece ser lido, afinal não é todos os dias que um brasileiro dá um ‘baile’ educadíssimo aos Americanos…

Durante um debate numa universidade dos Estados Unidos o actual Ministro da Educação CRISTOVAM BUARQUE foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência em alguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros). Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta de Cristovam Buarque:

‘De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro… O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito
de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos,ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país.
Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo.

O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Porisso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro,Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história domundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.

Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!’

 

 

 

6 Comentários »

  1. Mais um eco das declarações infelizes de Al Gore sobre a Amazónia (a ideia e “internacionalizar” a Amazónia foi originalmente dele, creio).

    Comentário por Clavis Prophetarum — Abril 27, 2008 @ 11:43 am

  2. Obrigado Clavis.
    Não sabia que era uma das ideias de Al Gore. mas a resposta é de um humanista, sem dúvida. e um humanista com a resposta para a mudança.

    Comentário por anlundo — Abril 27, 2008 @ 12:07 pm

  3. Fala Julien, valeu pelo toque.Olhe, Cama de gato vc acha em qualquer locadora.É que a distribuição foi independente.Foram poucas cópias.
    Fui!!!!Bom fim se semana.

    Comentário por Paulo — Maio 3, 2008 @ 9:00 pm

  4. Oi pessoal, saudações para todos!!!

    …que cassetada sem cassete que o tio “Sam” levou hein???…foi de génio!!!
    …e não posso dizer muito mais pois sendo portugues não conheço nem o individuo, o politico nem a ideologia politica do mesmo - infelizmente a politica no meu pías vai tão mal que nem dá espaço para seguir a dos outros!!!
    Agora, o que eu queria mesmo saber é se esta resposta foi publicada em algum jornal americano ou brasileiro…!!!

    ABRAÇOS PRA TODO MUNDO!!!

    Comentário por Luciano Paulo Rosa — Maio 25, 2008 @ 11:43 pm

  5. Que grande nível o deste ministro. Espero que que tenha a mesma aptidão para a acção política!

    Comentário por Bokaido — Maio 27, 2008 @ 12:28 am

  6. Paulo,

    deve ter comentado por engano. Esteja à vontade.

    Luciano Paulo Rosa,

    Obrigado pela sua visita, e pelo seu comentário. também não sei! sim em Portugal não temos nada parecido! é uma pena. porque em tempos de crise de liderança aparecem sempre alternativas válidas, fenomeno que ainda não aconteceu por estas bandas.
    penso que o discurso é fenomenal mas penso que alvo não foi apenas o ‘Tio Sam’ mas sim todo o mundo dito desenvolvido.

    Bokaido,

    obrigado pela visita e comentário.
    Bem observado. não basta discursar, apesar de neste discurso notar-se uma profundidade fora do comum, suportada numa filosofia humanista. é preciso acção. mas acção sem ideias também é péssimo.

    Comentário por anlundo — Maio 27, 2008 @ 7:26 pm

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