Geração à rasca – 12 de Março de 2011

Diria “Gerações à Rasca”!

É sem dúvida um sinal de consciência civica. Um despertar colectivo. A tensão do protesto já existia, estava latente, e bastou alguém ter a ideia que logo se converteu num protesto de todas as pessoas, de todas as gerações.

Que sementes foram lançadas hoje? Porque esta manifestação fará maior sentido se for um começo. O começo da participação activa dos cidadãos. É bom que se perceba que está nas nossas mãos a capacidade de mudança efectiva. O ”sistema” corrupto só sobrevive se os cidadãos deixarem-se subjugar.  Se participarem no colectivo por uma politica séria, com principios, assente numa ética reconhecida como base, como estrutura da vida de uma comunidade multi-cultural, então em pouco tempo vamos ver a luz ao fundo do túnel.

Não nos vamos iludir: Os próximos anos vão ser muito preocupantes! Materialmente vamos viver bem pior. Contudo, existe esta oportunidade de vivermos com o sentido da solidariedade, com o sentido da Justiça (por onde pode começar a reforma deste país…), com sentido mais profundo de Ser Português. Voltarmos às nossas raízes, à nossa cultura. Aí estará a felicidade comunitária.

E é fácil limpar a  classe politica! Basta querermos! Encolher os ombros e  não votar é mais fácil. A politica é nobre. Porque é que não experimentamos?!!!

Hoje estou muito contente!

Alain Oulman, uma pessoa geradora de mudança

Um precioso documentário sobre Alain Oulman, uma pessoa que implicou mudanças no Fado. alguém que trouxe novidade e transformação. mas Alain Oulman é daquele genero de pessoas que pela sua forma de viver e criar são impulsionadoras de algo novo, seja a compor musica, seja a encenar teatro, seja a editar livros. vejam o documentário sobre a vida dele, feito pelo seu filho Nicholas Oulman.  

Manuel Alegre e a mudança em Portugal

Creio que a eleição de Manuel Alegre pode ser um facto politico muito importante, provocador de mudança, e acima de tudo a abertura para  ver Portugal.  Ver Portugal! Porque neste momento não nos vemos. Somos um país cinzento. Seremos capazes de rir da nossa cegueira colectiva? A partir daí podemos reconhecer o nosso potencial, a nossa cultura, a nossa lingua. Não me iludo ao pensar que da noite para o dia toda a gente acorda. No entanto, a vitória de Alegre abrirá espaço. espaço vital, espaço de oportunidades para quem vê além da economia e finanças, além dos partidos, além descrença, além da mesquinhice, além da inveja, além da mediocridade, além do grande irmão. Todo esse pantano não deixa espaço. Mas com Manuel Alegre como Presidente as hipoteses de alguns (porque são sempre alguns) de conseguirem lutar por uma melhor sociedade são bem maiores.

Creio que vai haver uma segunda volta. É possível ganhar!

as novidades(?) do SOL

Sente-se o descontrolo. os que estão adormecidos já estão a acordar (forçadamente) e as avestruzes dificilmente aguentam mais tempo. isto tem vindo a descambar mas ultimamente nota-se um descontrolo mais rápido, não acham? 

sinais dos tempos, penso eu. Sinais de que isto está a cair e é preciso que caia rápido. 

amanhã, o jornal Sol traz mais novidades(?)  

Poema do Menino Jesus / Doce mistério da vida

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.

No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
“Se é que ele as criou, do que duvido.” -
“Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro

 

Doce Mistério da Vida
Maria Bethânia
Composição: Victor Herbert / Rida Johnson Young (versão: Alberto Ribeiro)

Minha vida que parece muito calma
Tem segredos que eu não posso revelar
Escondidos bem no fundo de minh’alma
Não transparecem nem sequer em um olhar
Vive sempre conversando à sós comigo
Uma voz eu escuto com fervor
Escolheu meu coração pra seu abrigo
E dele fez um roseiral em flor
A ninguém revelarei o meu segredo
E nem direi quem é o meu amor

 

onde estará a verdade? na soma das perspectivas diferentes? no mistério da vida?  é o coração o veiculo para o centro do universo? que tal escutar o nosso menino Jesus, ou o nosso coração, para que possamos mudar e sermos felizes…

Silêncio

NUNCA É SILÊNCIO VÃO

Nunca é silêncio vão
Esse que tenho contigo
Pensando em nós no que for
Só sei que sinto o amor
Quando te calas comigo.

E lá ficamos os dois
De mãos dadas no meu carro.
Consolas.me sempre assim
Calado junto de mim
Vendo as tristezas que varro.

E por mais que explique bem
O que vai no coração,
É do nada que vem tudo,
Nesse teu olhar tão mudo
Nunca há silêncio vão.

Letra: Carminho / Música: Pedro Rodrigues

bonito poema. penso que muita gente esquece de partilhar o silêncio. muda completamente a perspectiva. o silêncio é terreno fértil para a mudança.

Nota: vale a pena ouvir este e outros fados cantados por Carminho.

Renovar


Gaivota

(Composição original: Alexandre O’Neill / Alain Oulman)

Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
Morreria no meu peito,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.

Renovar é mudança? Será a mesma coisa que actualizar?
Segundo Infopedia é:

verbo transitivo
1. repetir
2. substituir por coisa melhor
3. pôr novamente em vigor
4. relembrar
5. reabrir
6. tornar novo
7. dar aparência de novo a
8. consertar
9. melhorar

verbo intransitivo
rebentar ou desabrochar de novo

verbo pronominal
1. tornar-se novo
2. rejuvenescer
3. regenerar-se
4. repetir-se

(Do lat. renováre, «id.»)

Renovamos porque já não conseguimos a originalidade? O que é isso de original? é tudo reinventado e renovado? somos pessoas renovadas? há algum mal nisso?
será temos que ser algo de bom para que haja material para a renovação? ou a renovação é conservação do que é bom?
é a renovação que garante a imortalidade de uma boa ideia? de uma coisa bela, do essencial?
é apenas renovado aquilo que merece ser preservado?
na renovação o que se muda e o que é que se mantem?

A canção é bonita.

revolutionary road

Se uma pessoa não preenche o vazio que se abre dentro dela isso torna-se uma necessidade não satisfeita que condiciona a sua felicidade.

As personagens principais do filme ‘Revolutionary Road’ entram em ruptura com elas próprias dinamitando a própria relação (consequência lógica). Como escapar a essa loucura? Ao tal vazio desesperante?! A lucidez não basta. O argumento do filme não dá resposta nem pistas. Apenas identifica o problema e demonstra a precipitação para a tragédia de quem não consegue iludir-se ou de quem não consegue acomodar-se.

Quer sejamos jovens ou adultos os sonhos que não realizamos terão que ser substituídos por outros, caso contrário, ficamos agarrados a uma decepção (connosco) entrando num caminho depressivo e abrindo um vazio. Se, por outro lado, não sabemos o que queremos da vida … aí penso que a tarefa de encontrar o sentido é mais complicada. É navegar sem orientação e aí nenhum vento será favorável como dizia Séneca. Provavelmente ter-se-á que pensar fora dos limites que nos impusemos. Voltar a ser Criança, voltar à Simplicidade, à Natureza talvez seja a resposta. Recomeçar. O acto de interrogar a Vida é um acto inteligente visto que a dialogar é que os humanos se entendem.